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Cidadania em ebulição Já está montado o cenário, em Brasília, para a Assembléia Popular, que vai se realizar dos dias 25 a 28 deste mês de outubro. Já confirmaram presença cerca de dez mil participantes, vindos de todos os Estados do Brasil. Os números surpreendem. Como surpreende a disposição dos participantes. Estão a fim de desencadear um “mutirão por um novo Brasil”. No livro do Apocalipse, quando se descreve a multidão congregada ao redor do Cordeiro, a pergunta do Autor denota sua surpresa: “estes, de onde vêm?” De onde vem esta gente, disposta a acampar em tendas, enfrentando calor e chuva, e pronta para debater os destinos do país? São cidadãos e cidadãs. Reúnem-se em assembléia porque se sentem no direito de fazê-lo. Pensam no Brasil, porque é seu país. Querem definir o seu futuro, como sujeitos responsáveis por seu destino. Querem partilhar apreensões e esperanças, dividir angústias e interrogações, buscar entendimentos e articular ações solidárias. Sentem-se fortalecidos pela diversidade de procedências, e estão abertos a adesão de todos quantos queiram se juntar a eles nos mesmos objetivos. Vistos no cenário da situação política por que passa o país, esta assembléia denota uma clara constatação. A cidadania acordou. E resolveu sacudir a perplexidade e a desilusão que parecia contagiar a todos, em face dos escândalos de corrupção fartamente difundidos. Os participantes deste mutirão por um novo Brasil testemunham que há causas muito mais atraentes do que as intrigas comezinhas da novela da corrupção política, com seus capítulos repetitivos e seus canhestros personagens. E' muito mais fascinante pensar neste imenso país, acreditar em seu povo e nas possibilidades concretas de solucionar nossos problemas. Assim o sentem, por exemplo, os que participam da “articulação do Semi-árido” , e apostam na viabilidade da convivência com o sertão nordestino, que já toma forma concreta com a construção solidária de cisternas para captar a preciosa água das chuvas, que apesar de poucas, não faltam para quem se organiza. Assim o pensam os que acreditam na revitalização dos nossos rios e se organizam para implementar as providências que são adequadas para isto. Também os membros do MAB, os “atingidos por barragens” souberam se organizar e postular seus direitos e colocar suas advertências. Como vêm fazendo também os membros do MST, e outros movimentos que assumem causas específicas que os uniram nas mesmas lutas. Além destas causas concretas e localizadas, existem outras, que aos poucos vão concertando articulações mais amplas, como é o caso da antiga postulação de auditoria da dívida externa, já recomendada pela própria Constituição de 1988, e ainda não efetivada. Esta assembléia já tem o seu valor ao mostrar a articulação existente, de tantas forças sociais, que vão tomando forma, e prometem se consolidar a partir deste evento significativo. Como veias que levam o sangue para todo o organismo, as forças sociais levam para todo o país a energia da organização consciente e responsável da cidadania. As pulsações do coração conferem ritmo e intensidade à circulação sanguínea. A “assembléia popular” destes dias pretende unir e dinamizar o processo de reflexão, de mobilização e de compromissos concretos, que já vem animando os diversos movimentos e pastorais sociais, promotores deste evento. Ele consolida o propósito de “articular as forças sociais para a construção do Brasil que nós queremos”, conforme o objetivo comum que trouxe a Brasília os membros desta assembléia especial que se reúne na capital do país. E' o “mutirão por um novo Brasil” que vai tomando forma. (*) D. Demétrio Valentini é presidente da Cáritas Brasileira. |
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