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Multirão por um novo Brasil Por que mutirão? De acordo com o dicionário Houaiss, a palavra mutirão designa “qualquer mobilização de cidadãos, coletiva e gratuita, para execução de serviço que beneficie uma comunidade”. Acrescida da experiência popular e de milhares de iniciativas que estão em curso, essa definição contém determinados elementos que ajudam a entender o processo da 4ª Semana Social Brasileira (4ª SSB). O primeiro deles tem a ver com o objetivo em questão. De fato, a construção de um novo Brasil não é tarefa para este ou aquele movimento, entidade, organização, partido, governo ou segmento da sociedade. Ela pressupõe o comprometimento de todos os cidadãos insatisfeitos e indignados com a opção política e econômica assumida pelos últimos governos e, por isso mesmo, dispostos a buscar alternativas. As injustiças e desigualdades sociais crescentes exigem uma tomada de posição e a união das forças sociais vivas e ativas. A dependência do país em relação ao mercado financeiro internacional tem feito aumentar, simultaneamente, o endividamento externo e as dívidas sociais. O resgate dessas dívidas não pode esperar, pois é condição indispensável para elevar a qualidade de vida da população de baixa renda. Em vista dos sucessivos ajustes fiscais, reforma agrária e agrícola, trabalho, saúde, educação, transporte, lazer, etc. são direitos sociais sempre adiados ou simplesmente esquecidos. As políticas públicas acabam sendo substituídas por meras políticas compensatórias, como é o caso do famoso fome zero . Por isso é que, em segundo lugar, mutirão aqui é sinônimo de mudança. Os dois termos se casam de forma indissolúvel. O imperativo de mudança, no Brasil, torna-se cada vez mais urgente. As recentes turbulências políticas só fazem aumentar a necessidade de repensar caminhos novos para o Brasil que queremos , como já lembrava a 2ª Semana Social. A atual institucionalidade política – a democracia jurídico-formal – representa na verdade o suporte e a legitimação do modelo econômico de corte neoliberal, ao mesmo tempo concentrador e excludente. A finalidade desse modelo é explorar até a última gota de água e de sangue os recursos naturais, a força humana e o patrimônio cultural da humanidade. Nem o ser humano, nem a vida em suas múltiplas formas, nem o planeta terra-água suportam por muito tempo esse impacto devastador. Aliás, os cientistas não se cansam de alertar para os efeitos nocivos de nossa civilização predatória. As mudanças, entretanto, por sua magnitude e profundidade, requerem uma grande “mobilização coletiva dos cidadãos” e de todos os atores sociais envolvidos com as causas populares. Em terceiro lugar, se é verdade que as mudanças somente serão possíveis por meio do mutirão, este, por sua vez, permite superar uma série de vícios presentes em muitas de nossas práticas sociais, políticas e pastorais. Não podemos negar que, não raro, nossas atividades são contaminadas por uma série de vírus que minam e corroem os meios e os fins a que elas se propõem. Entre tais vírus, convém apontar, por exemplo, a disputa surda pelo poder e pelo microfone, o corporativismo doentio de algumas organizações, o autoritarismo aliado ao machismo, a fragmentação e o isolamento de nossos esforços, entre tantos outros. Resulta de tudo isso que o conjunto de trabalhos que coordenamos nem sempre constituem um trabalho de conjunto . Multiplicam-se as atividades, sobrecarregam-se os agentes, militantes e lideranças, mas, muitas vezes, avançamos por caminhos paralelos e até contraditórios. Não é sem razão que o objetivo geral da 4ª SSB insiste em “articulação das forças sociais”. A palavra articulação supõe o rompimento de fronteiras, a abertura a um diálogo plural e democrático, bem como o reconhecimento da grande variedade das ações e iniciativas em curso. Diante de uma tarefa tão vasta e desafiadora, não podemos nos dar ao luxo de recusar novos aliados e de ampliar as parcerias. Nesta perspectiva, enfim, o processo da 4ª SSB e da Campanha Jubileu Sul convergem para a grande Assembléia Popular – Mutirão por um novo Brasil , a realizar-se em Brasília/DF, de 25 a 28 de outubro de 2005, com representantes de todos os estados da união e de inúmeras organizações sociais. Trata-se de juntar todas as energias combativas, com vistas a metas comuns num horizonte de uma sociedade e de uma civilização recriadas. |
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