A HERANÇA DA DOR É COLONIAL, SERVIL, ESTRUTURAL. ASSIM COMO É SUA FONTE, O RACISMO

Atualizado: 8 de mar.

Valéria Sales


Lendo bell hooks, em seu Vivendo de Amor, penso em meus pais e em ciclos. Escolher o afeto é resistência para os corpos marginais. Quem nos permitiu falar de amor?

A herança da dor é como eu costumo chamar essas marcas sociais e históricas que ficaram nas relações, principalmente do povo preto, mas de certa forma, em toda a estrutura familiar e interpessoal dos brasileiros e povos marcados pelo processo escravocrata. A herança da dor é colonial, servil, estrutural. Assim como o é sua fonte, o racismo.

Imagem: Valéria Sales. Foto: Carlos Lavigne/ Reprodução do Instagram @sales_va.

As ausências queimam o peito como brasa. Carregava menos dor, quem conseguia “sentir menos". O não-lugar, o não-amor. O açoite caía sobre corpos solitários e ainda caem. E quem é que consegue descolonizar olhos, ouvidos, boca e coração?


E o que é o amor num cenário de sobrevivência senão a possibilidade da vida em si? Entender a ancestralidade sem floreios talvez seja perceber que estou viva e inteira, ainda que doída, e devo isso a quem, não arriscando quebrar o ciclo, me trouxe até aqui de qualquer forma. Porque além de ação, amor é privilégio.




Valéria Sales é graduanda em Licenciatura em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), administra o perfil no Instagram @ser_estar_preta, que aborda pautas antirracistas, além de integrar projeto de pesquisa da Juventude Sul Baiana.