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CARTA DE JOANESBURGO: O SOCIALISMO É UMA NECESSIDADE AO NOSSO ALCANCE


III Conferência Internacional Dilemas da Humanidade


O painel de abertura da III Conferência Internacional Dilemas da Humanidade em Joanesburgo, África do Sul. Foto: Rafael Stedile

Entre 14 e 18 de outubro de 2023, 500 militantes e líderes de movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos de mais de 130 organizações de 75 países se reuniram em Joanesburgo, na África do Sul, para traçar uma saída para as catástrofes do capitalismo. A III Conferência Internacional Dilemas da Humanidade faz parte de um amplo processo que incluiu conferências regionais e 260 organizações participantes de 51 países. A partir desse espaço, proclamamos a necessidade urgente de superar a angústia de nosso presente para construir o socialismo agora.


O capitalismo está em estado de crise porque é um sistema social que cria tanto uma imensa riqueza quanto uma imensa desigualdade. Ele amplia a socialização do trabalho e reduz a capacidade do povo de aproveitar os frutos de seu trabalho. Ao mesmo tempo, o capitalismo extrai riqueza da natureza sem se preocupar com a destruição do planeta. A enorme desigualdade social e a catástrofe ambiental têm soluções possíveis. No entanto, as forças imperialistas – não dispostas a reconhecer o declínio do seu controle – usam o poder militar para manter através da força suas posições de poder. Preferem destruir o mundo para sustentar seus lucros e autoridade, em vez de salvá-lo para a humanidade.


Mudanças rápidas estão ocorrendo internacionalmente. O imperialismo, liderado pelos Estados Unidos, se vê desafiado em todo o mundo por povos que não estão mais dispostos a se submeter ao modelo de austeridade-dívida que leva à destruição econômica, nem a capitular à guerra econômica e militar imposta pelos Estados Unidos contra o que eles consideram seus "rivais". Os Estados militares ocidentais gastam trilhões de dólares em armas, constroem bases militares em nossas terras e usam suas armas mortais para intimidar os povos do mundo e destruir os processos estatais que buscam conquistar e manter sua soberania. Eles querem guerra e a estão preparando, usando a OTAN e alianças semelhantes para levar conflitos violentos a todos os cantos do planeta. Nós queremos paz e desenvolvimento. Nós nos comprometemos a ser firmes em nossa batalha de ideias contra as terríveis mentiras e meias-verdades imperialistas; nos comprometemos a construir as lutas dos povos para vencer a fome de lucro e a guerra do imperialismo


A construção do socialismo não é um processo linear nem pode ser copiado e reproduzido. Pelo contrário, é um processo longo e histórico que necessariamente enfrenta retrocessos e avanços. As experiências de construção socialista demonstram que o socialismo é uma realidade em nosso momento histórico atual e não um ponto de chegada distante.


Nossa luta pelo socialismo deve estar enraizada em uma análise concreta de cada realidade específica e na criatividade de cada processo. As bases do socialismo são construídas em ações e esforços diários que encontram soluções para os problemas criados pelo capitalismo, ao mesmo tempo em que criam uma nova consciência e constroem organizações da classe trabalhadora.

As lutas que atendem às necessidades básicas e concretas são essenciais para o avanço em direção ao socialismo. Diante dos desafios impostos pela atual crise do capitalismo, soluções genuínas estão surgindo na classe trabalhadora em todo o mundo. A mensagem é evidente: a classe trabalhadora, a espinha dorsal da sociedade, é o único grupo capaz de moldar uma visão de um mundo futuro que seja digno da humanidade, com base nos valores de solidariedade, justiça, respeito, amor ao próximo e cuidado com o meio ambiente.


A democracia, a soberania nacional e a autodeterminação são caminhos necessários para o socialismo e só podem ser plenamente alcançadas sob as condições do socialismo. Uma das barreiras mais terríveis ao socialismo é a existência da ordem unipolar liderada pelo imperialismo dos EUA, portanto, sua remoção é fundamental em nossas lutas. O cenário geopolítico em transformação e a ordem multipolar emergente oferecem uma oportunidade para avançarmos em uma agenda progressista. Isso, no entanto, depende do engajamento político das massas na construção de processos democráticos e socialistas em nossos próprios países.


O enfrentamento do imperialismo exige uma estratégia abrangente conectada à realidade de cada continente e enraizada em um projeto revolucionário. Projetos de integração regional, esforços de solidariedade, resoluções progressistas em instituições multilaterais e mobilização de massas são todos elementos de uma estratégia anti-imperialista. Devemos buscar alianças táticas que sirvam para enfraquecer ainda mais o imperialismo e, ao mesmo tempo, construir um caminho para a transformação socialista. Os movimentos progressistas em todo o mundo devem adotar um compromisso inabalável de solidariedade com as lutas populares contra a intervenção e a ocupação, respeitando o direito à resistência e à autodeterminação de todos os povos do mundo.


O capitalismo deve ser superado, e devemos ter a ousadia de nos engajar na construção do socialismo hoje. Essa construção exigirá a unidade da classe trabalhadora, do campesinato e de todos os povos oprimidos, uma unidade construída por meio da maior compreensão e confiança do povo por meio de suas organizações em seus próprios países e regiões. A juventude e as mulheres devem não apenas participar, mas também liderar os esforços e as lutas em todos os setores e em todos os níveis. Reconhecemos os desafios enfrentados pela classe trabalhadora e pelo campesinato, bem como por todas as pessoas oprimidas, para construir suas organizações em uma época de maior precariedade no local de trabalho e de atomização e alienação na sociedade. Acreditamos que os movimentos que fazem parte do processo Dilemas da Humanidade mostraram o caminho para construir essa unidade por meio de pelo menos quatro pilares da construção socialista:


  1. Solidariedade concreta. Em uma época de austeridade, nossas organizações estão comprometidas em lutar para transcender as barreiras enfrentadas por nossos povos para ter vidas dignas, além de barreiras como a fome e o analfabetismo. Temos o compromisso de construir processos de solidariedade concreta enraizados na classe trabalhadora e no campesinato, bem como em todas as pessoas oprimidas.

  2. Recomposição da classe trabalhadora. À medida que o capitalismo selvagem ataca os sindicatos nas fábricas e no campo, criando uma ordem de trabalho baseada na precariedade, lutaremos para recompor a classe, fortalecendo-a por meio da agitação, da educação e da mobilização em sindicatos, movimentos camponeses e outras organizações populares. A criação de cooperativas e comunas que reúnem as pessoas para desenvolver sua própria capacidade de iniciar o caminho rumo ao socialismo agora também são iniciativas fundamentais.

  3. Resgate da vida coletiva. As forças fascistas e fundamentalistas estão se implantando na vida da classe trabalhadora e do campesinato, construindo processos sociais que constroem uma vida coletiva para o povo contra a atomização e a alienação do capitalismo selvagem. Porém, nossos movimentos lutam para resgatar a vida coletiva não apenas da alienação do capitalismo, mas também das tentativas de coletividade tóxica produzidas pelas forças fascistas e fundamentalistas.

  4. Reconstrução da cultura de luta. A precariedade na economia, a imensa dívida doméstica imposta ao povo, o ataque às organizações da classe trabalhadora e do campesinato e outros fatores levaram a uma fraqueza em nossa capacidade de luta. Estamos em um processo de reconstrução da cultura de luta, incluindo as lutas internacionalistas de solidariedade material e ideológica.

A conferência Dilemas da Humanidade representa um avanço significativo na luta revolucionária da classe trabalhadora e do campesinato. Esse processo provocou debates críticos e acendeu a esperança e o compromisso com a construção de um mundo menor. As sementes do socialismo foram plantadas pelas forças progressistas que se reuniram em nosso processo. Nós nos comprometemos a cultivar essas sementes e a continuar fortalecendo as organizações e os instrumentos da classe trabalhadora, seguindo com o trabalho que foi realizado aqui em nossas organizações e em cada um dos países aqui representados.



Nota disponível para download:

Conferencia Dilemas da Humanidade
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