EM ILHÉUS SEMPRE TEVE LUTA!

Mateus Britto


Há uma afirmação na Apresentação da edição nº1 da Revista da Assembleia Popular de Ilhéus: Na história, onde houve opressão, houve reação do oprimido. Essas palavras não são vazias, tampouco óbvias. É comum que o discurso reproduzido após as batalhas seja o discurso do vencedor, e esse vencedor, não poucas vezes, é a classe dominante, a que historicamente nos oprime. Por isso a importância de dizer em voz alta: onde houve opressão, houve resposta do oprimido. Porque enunciar estas palavras é anunciar a nossa história, e esta, as classes dominantes querem ver morta e esquecida.

Fonte: Estado da Bahia, Salvador, 06 de novembro de 1936. Imagem retirada do artigo "Os comunistas vão à aldeia: A trajetória do Caboclo Marcellino e a atuação do PCB no meio Indígena." do Professor Marcelo da Silva Lins, disponívem em: https://osbrasisesuasmemorias.com.br/caboclo-marcelino/. A fotografia foi feita na ocasião da prisão desses homens em Itabuna. Ao centro está Marcellino, importante personagem da luta do povo Tupinambá de Olivença no início do século XX.

Esta reação[1] pode ocorrer de várias formas, a depender da correlação de forças entre as classes: há períodos em que a classe dominante vai exercer seu poder de forma mais ou menos violenta, articulando força repressiva e o controle do aparato jurídico e político. Historicamente, como exemplos conhecidos de reação das classes oprimidas, sabemos de greves, revoltas, rebeliões, revoluções, manifestações de rua, banditismo social, beatismo, guerrilhas urbanas e rurais e uma série de outras ações diretas face à opressão em que os grupos se viam subordinados. Há também formas culturais de resistência, presentes nas religiosidades, na língua, na corporeidade dos indivíduos, expressada pelas lutas, danças – é Mário Filho (1947) quem nos conta que o drible surgiu como um ato de resistência do negro no futebol.

Estas formas de resistência se aperfeiçoam à medida em que se desenvolve a organização em seu seio. Quando a organização não consegue se desenvolver, e isto pode ocorrer por variados motivos, mesmo que o movimento popular nasça “gigante” em quantidade de pessoas, sua tendência é desaparecer da forma que surgiu: do nada. Quando a organização se desenvolve, e à medida que ela se desenvolve, a tendência é que o movimento tome corpo e progrida, tomando decisões corretas baseadas em análises precisas, articuladas com a conjuntura em que se está inserido. É este movimento que chamamos de consciência de classe, quando o conjunto das trabalhadoras e trabalhadores desenvolve-se em organização e toma para si a tarefa de construir uma sociedade livre das opressões que historicamente a açoita.

Atualmente, na cidade de Ilhéus, mas também em diversos outros lugares do país, há uma movimentação das forças de esquerda para fazer o resgate da nossa história. Recuperar as lutas de nosso povo e suas personagens é um compromisso com a verdade, uma vez que as classes dominantes reproduzem falsidades históricas que de tanto serem repetidas, se tornaram senso comum. O exemplo mais claro que temos é o discurso de que não houve aqui na região trabalhadores sob o regime de escravidão nas lavouras cacaueiras, tema que os historiadores da região vêm se debruçando e demonstrando cientificamente a existência não só dessa prática, aplicada a homens, mulheres e crianças, mas do modo de produção desumano que aqui existia e seus impactos sobre esses trabalhadores. A burguesia ilheense se esforça também para defender uma suposta não-genuinidade do povo Tupinambá de Olivença, um discurso que tem a intenção de basear o seu avanço sobre o território tupinambá e que, infelizmente, convence parcela significativa da classe trabalhadora.

São conhecidas as revoltas no Engenho de Santana entre os séculos XVIII e XIX; o povo Tupinambá de Olivença rememora todos os anos o massacre que sofreu no rio Cururupe; a produção acadêmica nos revela a importante aproximação entre os comunistas e os indígenas nas primeiras décadas do século XX; greves dos ferroviários do eixo Ilhéus-Itabuna; formas de resistência existentes nos terreiros ilheenses; e em tempos recentes a luta fundamental protagonizada pela juventude em 2013 com o Movimento Reúne Ilhéus contra os desmandos das empresas do transporte público e sua relação incestuosa com o poder municipal.

Muitas outas lutas aconteceram em nosso território, e será necessária uma permanente investigação para descobri-las, afinal, nem sempre elas aparecem nos periódicos. Uma análise cuidadosa desses processos será certamente educativa para as lutadoras e os lutadores do povo, e consequentemente trará amadurecimento para as organizações que se engajarem no projeto. Conhecer o nosso passado é fundamental para não cairmos nas armadilhas ideológicas que tenta nos impor a burguesia e esta jornada tem o potencial de unificar uma série de lutadores e lutadoras rumo ao objetivo de ver uma sociedade efetivamente democrática, livre da opressão de classe, de gênero, de cor.



Mateus Britto é graduado em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), militante da Consulta Popular – Núcleo Revolta no Engenho de Santana e integrante do Coletivo Brasil Vermelho.


[1] A fim de evitar interpretações preocupadas com o termo reação e por desencargo de consciência, cabe dizer que reação aqui não tem o mesmo sentido da ré-ação que vai dar sentido ao termo reacionário, este cunhado no processo da revolução burguesa na França para nomear os grupos que se opuseram às mudanças instauradas pelos revolucionários em 1789. Os reacionários provavelmente nunca ouviram falar das leis do movimento da realidade, talvez por isso almejem ver a história a andar para trás e seu ponto de partida seja sempre conservador. Esta reação em questão, e aqui não é necessário nenhum teoricismo, trata-se do que acontece após alguém cuspir-lhe a cara, creio que nas ciências da natureza haja conceito equivalente.