O GATO BETUS E AQUILO QUE ELE ME FEZ ENXERGAR NAS ENTRELINHAS DE UM SÁBADO

Rafael Conceição


Meu propósito imediato é colocar diante do mundo, simplesmente, uma observação dessas que fazemos do cotidiano doméstico.

No último final de semana, fui visitar uma amiga que há tempos almejamos sentar para uma conversa. Ao chegar em sua casa, fui apresentado aos seus felinos Warkam e Betume, que carinhosamente passei a chamar de "Betus". A Warkam é uma felina mais amigável e dócil na aproximação. Bastou me ver folheando as páginas do livro do Fanon, encostou em mim e me permitiu fazer cafuné. Depois disso, me senti mais íntimo da gata.

O outro felino foi o motivo para a escrita deste texto. Uma característica interessante de sua personalidade é que ele não permite que qualquer pessoa o acaricie, nem mesmo a dona. Toda vez que nos aproximamos, ele se afasta. Em uma de nossas encaradas, Betus devolve seu olhar de analista, como se quisesse dizer “Mais um negão aqui na minha casa?”. (Risos).

Gato preto. Foto: Black Maine Coon Wallpapers.

Não muito raro, a atitude que geralmente costumamos assumir ao saber que Betus não gosta muito de uma certa aproximação, é tentar compreender o porquê desse comportamento. Em nossas relações humanas também não é diferente. Sempre que nos deparamos com pessoas mais retraídas, introvertidas, de difícil acesso, seguimos com dedo em riste distribuindo rótulos, fazendo deduções e buscando entender suas motivações. Na contramão disso, não ocorre tantas implicações com pessoas mais abertas ao diálogo e de fácil contato. Por que a gente se incomoda tanto com a maneira de ser do outro?

Em um dado momento, o gato me fez lembrar aquela velha frase: "É preciso admirar sem querer encostar, pegar". Tolentino nos dizia: “O que significa poder olhar e admirar sem, no entanto, estender a mão para possuir ou proferir os porquês e rotulações?”. Para ele, significa aceitar que há um mundo para lá de nós, um mundo que tem uma existência que nos ultrapassa, uma verdade que não nos pertence por direito.

Às vezes, com os nossos amigos, precisamos agir da mesma maneira que o Betus, que mesmo sem esse toque, está presente, fazendo a diferença da maneira e do jeito dele. Aliás, minha amiga não o ama menos ou mais pelo seu jeito. Ela aceita tal como ele é. Até porque essa foi a condição dada pelo Betus.

Os gatos são livres e não renunciam quem são para agradar seu dono. Eles simplesmente são. Isso não significa que sejam frios ou não gostam do dono, eles apenas não ligam para o que achamos dele.

Dizem que, para se gostar de gatos, animais independentes por natureza, é preciso ter a alma livre, sem essa ansiedade humana de controlar a tudo e a todos. Os gatos amam pessoas de almas livres, e a atração talvez seja mútua.

Ao final dessa visita, depois de tudo isso, o Betus me ensinou a lidar com sua própria dona, que em muitos momentos estava distante, fugindo do toque e, por algumas vezes, de si mesma, introvertida em seus pensamentos, emoções e feridas, mas ao mesmo tempo querendo habitar os espaços do silêncio, fazendo dele um espaço de troca, diálogo e presença.

Para um existencialista nada é mais caro que a liberdade daqueles que amamos, e é disso que se trata. É a renúncia da posse, do controle. É o acolher sem teorias ou subjeções.



Rafael Conceição Santos é bacharel em Psicologia.