NOSSA HISTÓRIA E O MONUMENTO DA PRAÇA PARA AMOTARA

Atualizado: 2 de fev.

Elias Carlos Arakuã Ete


Histórias, memórias, quando se têm, sejam estas das mais agradáveis às desagradáveis, fazem parte do gênero humano. Daí que quando ouvimos os nossos anciões e anciãs, desde nossos genitores, parentes biológicos e parentes étnicos, sempre aprendemos algo e, dependendo de nossa escuta ao nosso aprendizado, temos um caminho a percorrer. Por isso, desde Osvaldo Magalhães de Carvalho “Vavá”, José Magalhães de Carvalho “Zezito”, Ademar Magalhães de Carvalho “Miúdo”, os chamados “cabocos de Olivença”, como eram chamados na Proa, no Pontal e no centro de Ilhéus, ouvimos muitas estórias, histórias sobre Olivença e seus arredores.

Caminhada em memória dos mártires do Rio Cururupe (2018). Foto: Mateus Britto.

E foi assim que ouvimos muitas histórias desses cabocos que vinham de Olivença a pés pela praia, com animais, seja de jegue, mulas, cavalos e mais tarde em cima de caminhões para o Pontal, já que não tínhamos a ponte, sendo um dos caminhoneiros seu Moacir. Eram trazidas para a feira suas produções, como farinha de mandioca, piaçava, cocos e cereais para negociar e comprar mantimentos para suas famílias. Muitas das vezes, estes se perdiam no caminho onde, entre um gole e outro, gastavam o dinheiro que ganhavam com a venda das mercadorias nos bregas do empata-viagem.

Daí nossas relações com Olivença serem desde nossos ancestrais, ou seja, nunca saímos do território. Pois com todo sofrimento, com as discriminações, humilhações e preconceitos internos e externos, os cabocos sempre tiveram altivez e pensamentos para melhorias de seu povo. Foi assim que seu Vavá sempre pensou em seu povo, deveriam estudar para vencer os desafios futuros, até porque tinha uma irmã professora das primeiras letras, Dona Almerinda.

Lá pelos idos dos anos 1990, ao participar de uma das procissões em louvor a São Sebastião, um dos padroeiros da cidade de São Jorge dos Ilhéos, uma cena me chama atenção: uma senhorinha rezando e louvando de mãos dadas a uma jovem, esta que com certa dificuldade para se locomover, seguia a procissão. Como católico, participante da igreja São Francisco de Assis, já conhecia essa senhora de outras jornadas, mas mal sabia que ela era caboca de Olivença, conterrânea e contemporânea de Seu Vavá. Daí, certa ocasião, fomos convidados pelo nosso bispo a participar da caminhada em memória dos mártires do Rio Cururupe, da chamada Guerra dos Ilhéus, a qual começava a partir de Olivença em direção a praia do Cururupe. Mais uma ocasião para estar mais próximos tanto da senhorinha quanto de sua acompanhante.

Alguns anos antes, devido à percepção dos médicos Dr. José Carlos Silva, Dr. Rui Carvalho e uma assistente social que trabalhava no SESP, notou-se as dificuldades para o atendimento médico de alguns índios que viviam resistentes ao atendimento e praticamente isolados e desassistidos, onde eles mencionam a procura da FUNAI.

Daí surge o movimento Caporec, ligado à igreja católica, em que se trabalhavam cursos para reforço com alimentação alternativa e alfabetização de adultos. Uma das participantes foi a senhorinha e sua acompanhante, junto com outros integrantes da igreja e dos movimentos sociais, como dona Graça Carvalho e a jovem Núbia, sempre acompanhada de sua mãe que, com a prática do reforço alimentar da pastoral da criança, formavam equipes para dar cursos de assistência aos índios, pesando as crianças e orientando a comunidade sobre reforço com alimentação alternativa.

Sendo assim, ocorre a reorganização do nosso povo, depois de muitas idas e vindas a Brasília. Inclusive, o nosso Cacique Alicio Amaral e o Sr. Duca Liberato, foram alguns dos que reiniciaram a luta em defesa do nosso território após a luta do caboclo Marcelino, viajando a Brasília em cima de caminhões.

Mais tarde, Núbia, juntamente com outros de nossos parentes, participaram de cursos em Eunápolis e Porto Seguro, onde encerraram com a participação em Porto Seguro da celebração de outros 500 anos na virada do ano 2000, passagem do século XX, quando ocorreram diversas manifestações dos movimentos sociais, como quilombolas e indígenas. A partir daí, percebeu-se a necessidade da eleição de um representante indígena de Olivença. Mais tarde, é eleita a primeira Cacique do povo Tupinambá de Olivença, Maria Valdelice “Morubixaba Jamopoty”. A partir daí, cresce a organização do povo Tupinambá de Olivença em busca de educação, melhorias no atendimento à saúde e da demarcação do território Tupinambá. O povo Tupinambá, mostrando sua altivez mais uma vez, parte para a autodemarcação, fazendo retomadas, buscando pressionar o governo federal à finalização do processo demarcatório do seu território que está em fase final.

Por isso, se tratando de uma luta de séculos pela defesa do território, sobrevivência e existência, mais uma vez, o povo Tupinambá de Olivença marca com altivez definitivamente Olivença como Aldeia-Mãe e a Praça de Olivença como lugar sagrado, já que ali, há séculos acontecem as manifestações do sagrado para o povo Tupinambá de Olivença. Dirigem-se anualmente para esta praça parentes de todos os lugares para reverenciar seus ancestrais, como aconteceu no último dia 19 de outubro de 2021. Para celebrarmos o aniversário daquela senhorinha citada acima no texto, a grande guerreira Tupinambá de Olivença que lutou tanto pelo seu povo, Dona Nivalda Amaral de Jesus, precisamente às 20h, foi realizado nosso ritual, o poranci. Morubixaba Jamopoty, com a acompanhante Cris, que naquela época tinha dificuldade de se locomover, também citada no texto acima, juntamente com irmãos, filhos, netos, sobrinhos, parentes, amigos e parte do povo Tupinambá de Olivença fincaram um marco na Praça de Olivença em memória daquela senhorinha, para nós, “Amotara”, aquela guerreira gigante que tanto lutou pelo seu povo e que auxiliou tantas mães na hora do parto, salvando vidas, aparando tantas crianças.

Amotara encantou-se em 29 de abril de 2018, vivendo hoje entre as praias, florestas, rios de Olivença e em nossas memórias e corações, onde estará eternamente assim, como os nossos ancestrais estão junto à Îanderu Tupan, os encantados e São Sebastião.

Awêre.



Elias Carlos Arakuã Ete, licenciado em História pela UESC, técnico em Contabilidade, professor indígena na escola CEITO (Colégio Estadual Indígena Tupinambá de Olivença). Um dos fundadores do Sindicato dos Contabilistas de Ilhéus e da Associação Comerciantes da Zona Sul.