RESENHA DO DOCUMENTÁRIO 'COSTURANDO A VIDA COM FIOS DE FERRO'

Ingrid Macedo


Foto: Reprodução do Instagram @ofilmecosturandoavida.

O filme dirigido pela historiadora Jéssica Silva e pelo multiartista Naum Galdino é um produto didático do mestrado de Jéssica, em Ensino e Relações Étnico-Raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), e apresenta em autobiografia as narrativas de dez mulheres negras cotistas da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) do Departamento de Educação - Campus X (em Teixeira de Freitas, no extremo sul baiano). As histórias compartilhadas escancaram as dificuldades e desvantagens socioeconômicas que obstaculizam o caminho de ingresso e permanência das estudantes no ensino superior.

O título do documentário surge inspirado no conto “A gente combinamos de não morrer” de Conceição Evaristo (Olhos d’água - 2015). Jéssica nomeia a sua produção a partir do que aprendeu na tessitura do dia a dia. “O documentário surgiu por que eu sou uma mulher negra que ingressou na universidade através das políticas de ações afirmativas. Eu entendo a universidade como um espaço de poder, então a gente precisa construir narrativas que precisam ser visibilizadas ao longo dos nossos processos, que há muito tempo estiveram à margem. Então eu acionei o meu lugar político e quis debater neste documentário a permanência material e simbólica de estudantes negras cotistas”. Jessica afirma ainda que quase todo o documentário foi realizado sem financiamento, que foi obtido apenas nas ultimas fases do projeto, auxiliando na finalização. “Foi uma pesquisa que aconteceu através de parcerias, foram 22 pessoas diretamente envolvidas e 8 indiretamente. A gente teve 12 personagens e uma equipe majoritariamente preta”.


Foto: Reprodução do Instagram @ofilmecosturandoavida.

Os relatos das 10 mulheres trazem as perspectivas, quase sempre invisibilizadas, de quem precisa lidar com a insegurança econômica, alimentar e habitacional, além de ter que confrontar a desigualdade educacional, para se manter na universidade. Expondo o fato de que enfrentam inúmeros obstáculos para conseguir se dedicar aos estudos, em busca de uma vida melhor, o documentário desmistifica a ideia de meritocracia e deixa explícitos numerosos exemplos de conflitos de classe, de raça e de gênero que atravessam a vida das estudantes. O filme demarca a importância do ingresso ao ensino superior para essas mulheres e é um convite de escuta ativa ao espectador, para que então se problematize os processos de permanência simbólica e material e o efeito das ações afirmativas.

Nas palavras de Jéssica: “Olhamos para o passado/presente e constatamos a importância da educação para a população negra e, sobremaneira, das políticas públicas de ações afirmativas na vida das mulheres negras. No país que os números da violência contra a mulher negra só crescem, estamos vivas, escrevivendo nossas Histórias de luta, empreendimento e afetos.”


Assista ao documentário em: https://www.youtube.com/watch?v=O4uGejqNf_s

Tempo de duração: 40 min Ano de produção: 2018/2019


A película compõe o projeto Webinário - Narrativas Negras, juntamente com uma exposição fotográfica virtual no Instagram (@ofilmecosturandoavida) e Facebook, produzida pelos artistas André Medina e Daniel Sousa, e um Webinário realizado em live no YouTube, com uma mesa de discussão, disponível no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=LEs_AGpX3NU


O projeto conta com o apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura (Prêmio Cultura na Palma da mão/PABB) via lei Aldir Blanc, redirecionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.



Ingrid Macedo é multiartista e integra o coletivo Brasil Vermelho. É descendente Pataxó, nativa do extremo sul baiano.