RESENHA DO DOCUMENTÁRIO 'KUMÚHÚA - MARÉS DE HISTÓRIAS'



Ingrid Macedo


Card promocional do documentário Kumúhuá. A imagem de fundo é uma fotografia tirada contra à luz do sol, retrata uma pessoa em pé, de perfil para a câmera e de frente para o mar, com os pés à beira da água e segurando grande remo, maior que seu corpo e paralelo a este. É possível ver ao fundo alguns barcos e canoas. As cores predominantes são um azul marinho escuro do céu, um amarelo brilhante vindo da luz do sol e tons mais escuros de todos os objetos capturados pela fotografia. O card anuncia: “Aldir Blanc. Prêmio Cultura na Palma da mão. Kumúhuá, uma série dedicada à comunidade pesqueira de Cumuruxatiba. Direção: Nayara Domingos. Estreia: 27 de março. Link: bit.ly/kumuhua. Apoio Financeiro: Governo do Estado; Secretaria de Cultura; Secretaria Especial da Cultura; Ministério do Turismo; Pátria amada Brasil – Governo Federal”
Foto: Reprodução do Instagram @kumuhua.

A web-série documental Kumúhuá apresenta a importância da atividade pesqueira através dos relatos de pescadores e moradores nativos da vila de Cumuruxatiba, distrito de Prado, no extremo-sul baiano. A palavra Kumúhuá significa “mar” em Patxohã, língua ancestral (e revitalizada) do povo Pataxó, que tradicionalmente ocupa a região litorânea e as matas dessa região.

A pesca tem um papel central na economia local, tanto para o sustento quanto para a subsistência das famílias, e o exercício desta atividade normalmente passa de geração em geração. No país onde um prato de acarajé com camarão seco pode virar polemica na internet, a produção nos traz o ponto de vista de pessoas que dependem do pescado para se alimentar e viver, muitas vezes sendo o único meio possível para tal.

Em texto divulgado pelos produtores, se afirma que a “série documental e poética surgiu do sentimento comum de inspirar a vida através das histórias dos pescadores da Vila de Cumuruxatiba. Com um singelo retrato em som e imagem da pesca em Cumuru, buscamos acender as luzes da sétima arte para exibir a memória e a tradição cultural, em honra à história deste povo. A memória, as histórias, os sorrisos e o grande trabalho dessas pessoas que escreveram com seu suor grande parte da história da vila”


Fotos: Emanuel Kaauara. Reprodução do Instagram @kumuhua.


Em 4 episódios, a série retrata diferentes personalidades locais, trazendo histórias contadas por quem cresceu, viveu e vive do mar: conversas sobre as experiencias dos pescadores, suas realidades e o papel da atividade na sustentabilidade da comunidade dão o tom ao início do documentário. Os participantes falam sobre como as famílias tradicionalmente se alimentam da caça e da pesca, práticas de subsistência que foram levadas adiante através das gerações de forma sustentável, quando desenvolvidas sem as características predatórias de um sistema econômico de alta exploração dos recursos naturais. Se discute também a importância da preservação desses recursos por meio das reservas de proteção, como reservas extrativistas e territórios indígenas demarcados.

De fato, existe na região a TI Comexatibá, com 28.077 hectares (identificados e delimitados pela Funai em 2015, ainda aguardando homologação) e a Reserva Extrativista Marinha de Corumbau, que engloba a porção marítima da área, que conta também com a presença, em territórios limítrofes, do Parque Nacional de Monte Pascoal (Parque Nacional e Histórico). Reservas extrativistas são unidades de conservação permanentes, áreas de domínio público com uso concedido às populações extrativistas tradicionais para garantir a proteção dos meios de vida e a cultura dessas populações. Assim sendo, os espaços territoriais protegidos são fundamentais para promover o uso sustentável e a conservação dos recursos naturais.


Fotos: Emanuel Kaauara. Reprodução do Instagram @kumuhua.


Outros temas tratados são, por exemplo, os cuidados necessários com os materiais de trabalho (barcos, motores, redes e outros objetos), os encantos e os perigos de estar em alto mar, a fé e a espiritualidade que confortam e fortalecem o pescador frente aos riscos encontrados e as diferentes modalidades de pesca. Finalmente, seguindo o mesmo destino do pescado, o roteiro aporta na cozinha, apresentando a tradição culinária de Cumuruxatiba, com pratos típicos do nordestino brasileiro (regionalismo que engloba, e as vezes esconde, a influência da culinária indígena nativa e de povos africanos). O telespectador pode acompanhar então o preparo dos pratos, ouvindo relatos que descrevem as refeições como verdadeiros símbolos afetivos. São apresentados diferentes preparos de moqueca, como o peixe na folha de patioba (espécie de palmeira) da culinária pataxó (chamam-se 'moqueca' preparos que passam pelo moquém, técnica indígena para assar/defumar e amaciar carnes e peixes), a tradicional moqueca “baiana”, de inconfundível influência africana, com o uso do azeite de dendê e também a adaptação de um prato angolano, de nome “muamba”, tipicamente preparado com aves, mas que nesse caso, ajustado para a realidade da região, passa a ter o peixe como ingrediente principal.


Lena, chefe de cozinha e proprietaria do restaurante Panela de Cumuru. Foto: Phanuël Xumi. Reprodução do Instagram @kumuhua.

Dolores, chefe de cozinha e proprietaria do restaurante Mama Africa. Foto: Phanuël Xumi. Reprodução do Instagram @kumuhua.


Num apanhado de belas imagens, melodias e contação de histórias, a web-série deixa registrado parte do legado imaterial de vida e da história das pessoas dessa pequena vi