“SÓ FALTAM DETALHES” – QUE TIPO DE DESENVOLVIMENTO QUEREMOS PARA ILHÉUS?

Atualizado: 11 de abr.

Mateus Britto

Em agosto de 2020 foi publicado em diversos blogs de notícia da região cacaueira o anúncio do prefeito Mário Alexandre (PSD) da construção de um shopping center na cidade de Ilhéus. Uma obra deste tipo é vista como uma espécie de “sonho antigo” do cidadão ilheense e seu anúncio ocorre a três meses das eleições municipais. Informações sobre o local de instalação, estudo de impacto ambiental e planejamento da infraestrutura da cidade não foram apresentados.

Esta promessa eleitoral parecia diferente de outras conhecidas, como o parque das maritacas, por exemplo, resposta dada ao corte de dezenas de árvores da Avenida Soares Lopes, fato que obteve relevância nacional por ter tirado a casa de centenas de aves, especialmente as da espécie Eupsittula aurea, o periquito-rei, chamado vulgarmente de maritaca pelos moradores da cidade. O corte causou a morte de várias aves e outras tantas invadiram algumas residências ao redor em busca de abrigo. Em debate com outros candidatos à prefeitura, Mário Alexandre anunciou a construção do parque, sem grandes detalhes de como isto seria feito ou como isso amenizaria o impacto da retirada das outras árvores. Em entrevistas, o prefeito também anunciou projetos de requalificação da Avenida Soares Lopes, melhoria das estradas dos distritos e da infraestrutura dos morros.

Reconquistado o pleito com pouco mais de 37 mil votos, o assunto do parque não voltaria a ser mencionado pela prefeitura, diferente do da construção do shopping.

Durante o ano de 2021, anunciaram que este seria feito na zona sul, de frente para o mar: “Será um shopping voltado para o turismo de praia e vamos valorizar bastante a cultura do Cacau e de Jorge Amado”, afirmou o dirigente do Grupo Chaves em nota do jornal Correio, publicada em 23 de janeiro de 2021. Posteriormente, a ideia foi substituída pela construção de um “mall urbano de vizinhança”, situado no terreno da antiga Maternidade Santa Thereza, até a desistência formal do grupo Chaves, por motivos pessoais, com a promessa de que o projeto retornaria em um futuro próximo.

Não nos interessa averiguar esse tipo de bastidor, mas podemos aproveitar a temática da construção de um shopping center para discutir o tipo de desenvolvimento que tem sido proposto para a nossa cidade e para a nossa região, e a partir daí, debater o tipo de desenvolvimento que a classe trabalhadora de nossa cidade precisa. Os argumentos que visam justificar a execução da referida obra, e de todos os outros empreendimentos que chegam à região giram em torno de dois aspectos: turismo e emprego.

Foto: Rodrigo Macedo. Reprodução: Folha da Praia.

Primeiro, Ilhéus teria mais uma opção de lazer, além das praias, dos bares e de um teatro que, pelo pouco apreço que este município tem com a cultura, não possui a projeção adequada à cidade. Este lazer seria materializado em diversas salas de cinema, lojas de roupas de marca, redes de fast food, etc. Depois, um shopping seria um atrativo turístico que poria fim ao inquietante desce-no-aeroporto-e-vai-pra-Itacaré; seria o ‘trisal’ Ponte Jorge Amado, Aeroporto Jorge Amado e Shopping Jorge Amado. Além do mais, há o estranho consenso de que o turismo é bom, mesmo quando feito de qualquer jeito. Por fim, o shopping geraria uma grande quantidade de empregos, que vão desde a sua construção física até os empregos diretos – em lojas e na própria estrutura predial – e indiretos – a alimentação dos trabalhadores e o transporte.

Muita coisa boa. Vamos às consequências negativas.

O primeiro impacto dessa construção será no meio ambiente, pois para esse tipo de construção é necessária a destruição de parte da vida natural de um lugar. Temos visto que desde o início do governo Bolsonaro o desmatamento e as queimadas foram intensificados. A Bahia, por exemplo, perdeu mais de 14 mil hectares de mata nativa entre 2018 e 2019, 3 mil a mais que no ano anterior. O estado ocupa a 2ª posição no ranking de desmatamento da Mata Atlântica desde 2021. Deixemos claro que não é a obra em si que causará todo esse impacto, mas esta se soma a diversas outras que vêm acontecendo na cidade de Ilhéus, especialmente na zona sul. Cabe ainda mencionar que os estudos e os relatórios de impacto ambiental destas obras, presumindo que existam, não são de forma alguma apresentados para a devida apreciação da sociedade civil e não são raros os casos de obras iniciadas sem licenciamento ambiental que em alguma fase de sua execução são embargadas.

Para além do desnudamento do solo, consideremos que um shopping gera esgoto, e este, como dizem que vai ser estabelecido na beira da praia, tem duas opções: ou se constrói uma rede de esgoto que trate os resíduos antes de jogá-los na natureza ou se despeja de uma vez no mar e o povo que se banhe mais para o sul. A primeira opção é mais coerente. Essa solução não poderia ser pensada para contemplar todo o restante da população que convive com o esgoto passando diariamente na porta e como se não bastasse, precisa passar por dentro dele para tomar um banho de mar?

O mesmo acontece com o lixo. Historicamente, as gestões municipais não têm planejado o manejo dos resíduos sólidos e quando o lixo não está espalhado pela cidade, ele é depositado de maneira irregular na natureza, formando lixões que prejudicam o lençol freático de maneira direta. Os empresários da construção do shopping tentarão vender alguma solução sustentável para os resíduos produzidos no espaço, mas para o resto da cidade não será anunciada nenhuma solução para um problema que persiste há vários anos.

Ainda algumas palavras sobre o lado bom de uma eventual construção de um shopping: o lazer que este espaço proporciona é inclusivo? O local que foi anunciado para a construção dificultaria o acesso a pé, sendo assim, seria resolvido o caos da mobilidade urbana para que a população desprovida de veículos tenha acesso ao lazer de um shopping? Há de considerar também que este lazer será segregado não só pela distância, afinal, em um período de recessão onde itens básicos de alimentação estão a preços caríssimos, qual a parte da população teria lazer em um shopping?

O turismo de um shopping enriquece a cidade? O turismo é uma coisa que só pode existir quando envolve a população trabalhadora de forma direta. Em um shopping estarão instaladas grandes empresas, muitas de capital estrangeiro e são elas que captarão esse dinheiro trazido pelos turistas, não o povo ilheense. Pensar em melhorar o turismo com a construção de um shopping é pôr o carro na frente dos bois, o primeiro cuidado deve ser sempre com o bem-estar dos trabalhadores no município, o que impõe melhorias no transporte público e na infraestrutura da cidade. Aliando isto ao incentivo à cultura de nosso povo, as bases para o turismo estão dadas.

Por fim, a geração de empregos, coisa que é verdade, principalmente sobre os empregos diretos, mas que ainda assim superestimamos. Os empregos gerados pela construção são temporários; e os empregos indiretos, estes no campo da alimentação dos trabalhadores e do transporte girarão em torno dos aplicativos, ou seja, são trabalhos precários, com várias horas de atividade e sem qualquer garantia trabalhista.

Evidente que esta é uma discussão sobre um shopping que não existe e não temos a intenção aqui de nos posicionarmos contra ou a favor deste tipo de construção, mas sim de usar este exemplo para pensarmos o desenvolvimento de nossa cidade. Uma obra desta atende quais interesses? Dos trabalhadores e trabalhadoras que vivem em difíceis condições nos bairros periféricos ou da zona nobre que vem se formando na área onde pretendem construir o shopping?

O debate do desenvolvimento da região deve ser iniciado junto às organizações políticas, movimentos sociais e entidades da sociedade civil organizada através de fóruns de deliberação sobre o desenvolvimento, onde a população possa apreciar os relatórios de impacto das grandes obras e possa propor alternativas sustentáveis para minimizar os efeitos negativos e socializar as benesses que estes empreendimentos possam trazer. É preciso lembrar que a cidade pertence ao povo e não é por acaso que o acesso à informação acerca de tais empreendimentos seja dificultado a esse povo.



Mateus Britto é graduado em Licenciatura em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), militante da Consulta Popular – Núcleo Revolt