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A ESTRATÉGIA DA REVOLUÇÃO SEGUE VIVA

Atualizado: 28 de abr. de 2023

Pedro Carrano


De 12 a 16 de abril, na cidade de Nazaré Paulista (SP), cerca de 160 delegados reafirmaram a manutenção e atualidade da organização Consulta Popular, instrumento político que atua, com peso importante, na vida política brasileira há 25 anos.

A Consulta Popular, surgida em 1997, a partir de iniciativa de movimentos sociais, principalmente do MST, foi construtora de várias iniciativas no marco da esquerda, seja na formação, na construção de espaços organizativos unitários e também esteve envolvida nas principais lutas dessas duas décadas.

A organização política teve participação decisiva nos principais plebiscitos populares realizados pela esquerda brasileira, construindo em cada um deles uma síntese dos principais problemas do Brasil, caso do plebiscito popular questionando a dívida pública (2000); do plebiscito contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca – 2002); pela anulação do leilão da Vale (antiga Vale do Rio Doce - 2007); por uma Constituinte do Sistema Político (2014), gerando grande participação e uma pedagogia de trabalho popular e de massas.

Desde então, a Consulta Popular tem sido uma escola para uma geração de militantes, em luta por um Projeto Popular para o Brasil, que tem como horizonte a revolução brasileira a partir de um projeto de ruptura. O que se materializa, na realidade brasileira, na necessidade de um programa democrático-popular, de reformas nacionais, anti-imperialistas, antirracistas, feministas e antiLGBTfóbicas. A tática da revolução brasileira é flexível, a estratégia, porém, é de longo eixo e não pode ser ignorada em nome das pressões imediatas.

Nesses anos, ao lado de importantes movimentos populares, além do já citado MST, caso do MAB, MPA, MMC, MAM, MCP, MTD, Levante Popular da Juventude, entre outros, pode-se dizer que os quadros da Consulta Popular forjaram-se no método do tripé - estudo, organização e lutas -, inseridos nas frentes de massas, na construção paciente ao lado do povo brasileiro, avessos a personalismos, conscientes de que espaços institucionais cumprem papéis importantes, mas a estratégia da esquerda deve estar com a bússola nas lutas por reformas estruturais que abram a possibilidade de uma revolução brasileira em direção ao socialismo.

Obviamente, esta construção se mantém em meio a um difícil momento histórico, em que no plano mundial as forças populares vivenciam um longo ciclo ausente de revoluções, desde a década de 80. Em particular, com o golpe de 2016, abre-se na realidade brasileira um período de defensiva da classe trabalhadora a partir do impacto do que a Consulta Popular considera uma derrota estratégica da esquerda, que ainda se recompõe desse processo ainda inconcluso.

A Consulta Popular cumpriu e deve seguir cumprido exemplo pedagógico importante, sendo que sempre atuou na esquerda conspirando pela unidade programática / Comunicação Consulta Popular

Em que pese ter tido atuação intensa nas eleições de 2022, tanto na campanha de Lula, como nas eleições proporcionais nos estados, o início de governo Lula, marcado pela esquerda ainda buscando se recompor e encontrar uma linha de ação para esse período, traz dificuldades previsíveis.

O marco de esgotamento de ferramentas do período anterior certamente gera impasses para uma organização programática como a Consulta Popular –, o que fez com que tenha vivido um momento de questionamento, que antecedeu a VI Assembleia, sobre o seu próprio sentido de existir.

Entretanto, a afirmação da necessidade da Consulta Popular, feita em Nazaré Paulista, é uma notícia importante para a esquerda brasileira. Aliado a isso está o passo firme do compromisso com o antirracismo.

“Apontamos que a luta de negras e negros e o antirracismo estão inseridos na tática, na estratégia e na organização rumo à Revolução Brasileira”, afirma Carta Compromisso da Assembleia.

A Consulta Popular cumpriu e deve seguir cumprido exemplo pedagógico importante, sendo que sempre atuou na esquerda conspirando pela unidade programática, pelas lutas como fator de coesão, pela agitação e propaganda do Projeto Popular, ajudando a criar ferramentas importantes, caso do jornal Brasil de Fato e da editora Expressão Popular, para citar apenas dois exemplos.

A generosidade na luta, a solidariedade de classes, o internacionalismo, o “quehacer” político com habilidade e capacidade de aglutinação são marcas históricas da organização. A concepção de uma militância de construtores e construtoras da revolução é um sinal importante para se manter aceso neste período.

Nesse momento, a Consulta Popular sai da assembleia fortalecida apontando a necessidade de intensificar a formação e a propaganda revolucionária – o canal Rondó da Liberdade é um exemplo dessa construção -, uma propaganda que qualifique a ação e um trabalho paciente no seio do povo.

Um instrumento político nunca é um fim em si mesmo, sempre está profundamente conectado à luta de classes, uma vez que apenas um salto de qualidade no movimento de massas pode gerar um salto de qualidade em ferramentas políticas da classe trabalhadora.

Um dos principais legados da Consulta Popular é aliar o geral e o particular, na perspectiva marxista-leninista, reafirmando as lições centrais da experiência revolucionária do século vinte. Aliado a isso, a simbologia, a história, a formação social do Brasil, e as características particulares necessárias a uma revolução brasileira. Não à toa, a organização atravessou o período anterior chamando a atenção da esquerda para a necessária disputa em torno da bandeira do país e sua simbologia.

Em sua VI assembleia nacional, a Consulta Popular enfatizou a necessidade de combater o neofascismo, aliado ao imperialismo, sob comando dos EUA/Otan, que segue sendo o inimigo principal da humanidade, como os documentos da organização apontam desde 2007.

No Brasil, reafirmou o apoio necessário ao governo Lula, o que implica também a crítica ao neoliberalismo, para fortalecer, com isso, um canal de diálogo com as massas. A atual frente ampla é insuficiente e a esquerda precisa do fortalecimento de uma frente popular e antineoliberal.

Numa conjuntura ainda de defensiva da classe trabalhadora, difícil e incerta para os próximos anos, seja pela manutenção da guerra no coração da Europa, pela menor margem de manobra dos governos progressistas na América Latina, e por um governo Lula que precisará combater a herança de amarras neoliberais, a sobrevivência de uma organização como a Consulta é uma notícia importante para a esquerda brasileira.

Sobre essa organização se pode parafrasear aquilo que o comandante Carlos Marighella escreveu em tom poético: queremos ser uma (entre várias organizações) construindo a Revolução Brasileira.
Um dos principais legados da Consulta Popular é aliar o geral e o particular, na perspectiva marxista-leninista / Comunicação Consulta Popular

Edição: Frédi Vasconcelos


Pedro Carrano é militante da Consulta Popular, do Movimento de Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD) e da União de Moradores em Curitiba-PR.

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