A VIAGEM DE CARLOS

Sebastião Neto


Era aquela apenas mais uma quente noite de verão tropical na pacata cidade de Belmonte. Após mais um dia de trabalho árduo, ele decidiu ir até a praia para dar uma espairecida, como de costume. A noite estava excepcionalmente bonita, a lua cheia parecia maior e mais brilhante do que nunca. Ele se sentou na areia, acendeu um cigarro e ficou ali contemplando o céu, o mar, as folhas dos coqueiros, que bailavam acariciadas pelo ar fresco vindo do oceano...

Para ele aquele era o melhor momento do dia, pois sentia que o ambiente lhe recarregava as energias, equilibrava seu ser como se ele fosse um instrumento sendo afinado por forças ocultas do universo. Além disso, era naquelas horas que ele fazia as mais profundas reflexões de sua vida. Reconhecia suas falhas e estabelecia fórmulas, princípios e metas para conduzir sua existência de forma organizada, visando atingir seus objetivos.

Mas naquele dia aconteceu algo extremamente surpreendente. De repente ele avistou uma luz branca muito intensa vinda das profundezas do céu. Imaginem sua reação diante daquele fenômeno aterrorizante! Em poucos segundos aquele objeto estranho e luminoso pousou diante do jovem Carlos, que ficou extremamente assustado: seu coração parecia que ia explodir, sua respiração ficou ofegante, todo seu corpo tremia e suava intensamente.

Em seguida, Carlos desmaiou. Quando acordou se deu conta de que havia sito abduzido por seres de outro planeta. Ficou por três semanas no planeta XZZT. No começo ele sentiu muito medo, mas logo percebeu que os ETs não tinham a intenção de lhe fazer nenhum mal. Muito pelo contrário, a intenção deles era abrir a mente daquele simples terráqueo, mostrá-lo que o universo é bem maior e mais rico – também de seres pensantes – do que alguns limitados seres humanos imaginam.

Carlos ficou maravilhado com aquela experiência. Viu o quanto a vida é respeitada e valorizada naquele planeta. Lá, a produção de alimentos e demais bens de consumo é planejada para atender às necessidades essenciais de toda a população. Dessa forma, eles conseguem evitar o desperdício dos recursos naturais e gerar uma quantidade muito pequena de lixo – além disso, a maior parte deste é reciclada ou reaproveitada.

Não existem patrões e empregados, ricos e pobres, exploradores e explorados, etc. Todos trabalham e o fruto do trabalho é repartido de forma equilibrada e justa. Os conhecimentos científicos e tecnológicos, assim como outros, são desenvolvidos com muita velocidade e são considerados um patrimônio social, por isso não há patentes ou coisa do tipo. Tais conhecimentos são amplamente difundidos e compartilhados.

Capa do livro News from Nowhere de William Morris. 1ª ed., 1890.

Tal como na Terra, naquele planeta existe entre as “pessoas” uma grande variedade de crenças, costumes, etnias etc. Porém, diferentemente do Planeta Azul, lá o respeito às diferenças é um valor universalmente reconhecido e praticado, por isso, reina a paz e a harmonia entre os indivíduos e grupos. As diferenças não se convertem em desigualdades.

Carlos foi muito bem acolhido por todos. Viajou, fez amigos e se divertiu bastante nas grandes e belas festas que aquele povo alegre faz com alta frequência. Tudo o encantava: as músicas, as danças e especialmente as deliciosas comidas servidas em todos os lugares por onde passou.

Quando Carlos foi trazido de volta para nosso planeta, tinha-se convertido em uma pessoa totalmente diferente. Sua mente parecia ter evoluído na velocidade da luz. De pronto, pôs-se a difundir os conhecimentos e valores aprendidos com os serezinhos coloridos daquele longínquo planeta. Com muita humildade e respeito ao próximo, começou a propor mudanças no modo de vida das pessoas, de organização e funcionamento da sociedade.

Carlos acreditava que, depois daquela belíssima experiência, tinha o dever de alertar os outros seres humanos sobre a necessidade de assumirem uma postura diferente em relação ao universo e a eles próprios, pois, do contrário, a humanidade jamais conheceria plenamente o verdadeiro significado de palavras como amor, paz e felicidade.

Mas, infelizmente, meu ilustríssimo conterrâneo não obteve êxito em sua missão. Pouquíssimas foram as pessoas as quais lhe deram ouvidos. Alguns simplesmente o ignoravam, outros o tratavam com desdém, o chamavam de lunático, louco-comunista, até de petista ele era chamado, embora nunca tivesse tido nenhum relação com partido político algum.

Após ter levado algumas surras da polícia, sem qualquer justificativa plausível, e de ter sido internado a força em um hospício, o coitado ficou realmente avariado das ideias. Não lembrava nem o próprio nome. Alguns anos depois, morreu à míngua em uma calçada aonde costumava dormir.



Sebastião Neto é licenciado em química e atualmente trabalha como assistente administrativo na Prefeitura Municipal de Ilhéus. É militante de esquerda, o que, em sua visão, significa lutar contra todas as formas de exploração e opressão, visando construir um mundo melhor. Nas horas vagas, gosta muito de ler, escrever e fazer um som, sozinho ou com o(a)s amigo(a)s.