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ALEXANDRINA

Brisa Aziz


Alexandrina é parteira de mão cheia e muito sábia, embora mal escreva o próprio nome. Baixinha de pernas tortas, cabelos brancos muito longos. Olhos de um azul profundo, como dia de céu limpo às nove da manhã.

Xandinha ama intensamente a profusão de netos que se esparramam pela casa que ela e o marido deixaram para a filha logo nos primeiros anos de casamento da mesma. Não haviam suportado os sussurros da realidade que o jovem casal sustentava numa quase surdina: o relacionamento lastreado em tapas, cachações, empurrões, socos, puxões de cabelo e palavras de baixo calão que o genro dedicava sem parcimônia à esposa, especialmente quando bebia.

Esse arremedo de casamento deles já durava anos e houve tempos em que Alexandrina se desesperara. A filha, Tonha, parindo um menino atrás de outro, costurando pra fora, fazendo por encomenda sequilho, bolo, sonho... Fazendo sonho pra vender aos outros, enquanto seus filhos sobreviviam à base de café ralo misturado com farinha numa tentativa de sustança.

Alexandrina chegara a ver os netos esquálidos. Os corpinhos magros lhe impressionaram pela semelhança com crianças que vira estampadas num jornal quando mocinha. Nunca soube ler, mas jamais esqueceu o nome, dito pela boca fétida do dono da banca de jornais: HO-LO-DO-MOR. As crianças estampadas na primeira página eram vítimas de HO-LO-DO-MOR. Ela achou uma desgraça que o rolo do amor fosse algo que inspirasse deixar crianças a ponto de morrer de fome. Quem diria: anos depois ela veria no genro uma extensão da política stalinista – desapropriação de alimentos da boca dos meninos para fomento da indústria do alambique.

Iansã. Reprodução Botucatu Online.

Mas isso tinha sido mais de década atrás. As coisas tinham até melhorado, é bem verdade. A filha, baixinha como a mãe e de olhos verde-amendoados que lhe emprestam ares felinos, se ajeitou por anos ludibriando a tal cegonha com ervas abortivas e pílulas anticoncepcionais recém-chegadas na Bahia até que, num quase vacilo, acabou por gestar e parir mais uma, a derradeira, há pouco tempo. Bárbara Conceição era seu jeito de prestar homenagens a duas orixás do mês de nascimento da menina. Xandinha fazia coro à filha no culto aos orixás e na missão de reabilitar o genro.

Esse cuida bem cedo de alimentar as galinhas e os galos que sempre criou, de limpar os excrementos do ‘passo’ preto e do ‘cancão’ que o reconhecem de longe e voltam sempre, ainda que deixe as gaiolas abertas. Honesto e trabalhador, um homem bom - na boca dos seus pares. É ele a alegria dos encontros na Baixa do Silva ao chegar com seu violão, esparramando causos, entornando uns tragos e beliscando um ‘taquin’ de charque nos fins de semana. Mais tarde na madrugada, ao chegar em casa com a cachaça já toda subida pro juízo, se mostra por inteiro ao se injuriar com o que qualifica como mau gosto da mulher em lhe esquentar a janta e lhe servir o prato. Além do jeito traiçoeiro com que ela nunca retruca e ouve tudo calada. Nos dizeres dele, mulher só presta mesmo pra ser puta e essa não haveria de ser diferente.

Antonia, por sua vez, nunca fora apaixonada pelo marido. Contou uma vez que tinha mesmo se entregado aos 14 anos só para sair debaixo da asa e dos olhos atentos de gavião da mãe. Naqueles tempos mulher fêmea não tinha muita opção. Como boa rebelde, bancou a teimosia até o fim e, uma vez grávida, quis se casar para não se tornar mulher da vida como duas de suas primas que viviam em aviões, pra cima e pra baixo, indo e voltando do Recife com figurões da sociedade baiana. Deus a livre. Acha melhor suportar os impróperios e apanhar do marido, mesmo tendo ali a casa em seu nome e sua renda própria, que a bem da verdade é o que sustenta seus filhos. Nunca deixa que interfiram, nunca fala mal do marido, não se queixa com ninguém. Todo mundo vê e ouve. Ela desapercebe as coisas intencionalmente. “Não sei, não vi - cabe em qualquer lugar” é um dos muitos provérbios que recita aos filhos. “Quem muito se abaixa, o furico aparece” também.

E enquanto a vida da filha e do genro flui a descontento, Xandinha reclama sempre e reclama muito: com a própria filha, com os netos, com os vizinhos, com as comadres, com os donos de vendas, com a mãe de santo de sua devoção. Reclamar é sua forma de suplicar ao Universo – oxalá as coisas fossem diferentes. Tivesse sua única filha lhe ouvido e se mantido trancada dentro de casa como ela queria, não estaria sofrendo tanto hoje. Paciência. E paciência Alexandrina tem. Espera pelo dia em que o machado de Xangô faça justiça a tanta descaração.

Naquela noite, quando o velho chegou da rua, seus guias não lhe permitiram pressentir a crueza dos fatos. Tivesse sabido o que estava por vir e a noite não teria sido tão doce, tão cheia de chamegos. Decerto a velha teria se paralisado tomada de pavor.

Fausto, seu companheiro de décadas, representa para ela o epítome do bem viver. Baixinho, pele da cor de ferrugem, cabelos já brancos, olhos castanhos e uma construção física mediana de quem se criou na zona rural numa época sem fartura. Sempre fora calado, bem-humorado, sonso e muito tranquilo. Daquela espécie rara de gente que impressiona pela disposição para não se meter na vida dos outros – não sendo para ajudar, também não atrapalhava. Tinha sido ele mesmo que dissera à filha então com 14 anos: “Não precisa casar. Eu sou homem pra cuidar de você e do filho que está na sua barriga”. A filha fracassou em perceber nessa época que Poesia, pra ele, era cuidar dos seus.

Marceneiro de mão cheia, se aposentou após a perda de um polegar em plena aula no Liceu de artes e ofícios da Bahia onde era mestre. Ensinou de modo imperativo àquela turma de alunos o que não fazer no manejo das maquitas. Nos últimos anos vinha preenchendo seus dias com uma barraquinha de doces no Pau Miúdo, bairro cujo nome nada tinha de semelhante com sua pessoa, visto que à noite ele promove umas safadezas boas com a senhora sua companheira, que acolhe e fomenta suas sedes e suas fomes de ousadias, mesmo estando os dois numa idade considerada avançada. Essa noite não haveria de ser diferente.

Duas contas azuis, os olhos da velha vidrilhavam: Águas de córrego cascateando retinas. Foram estes olhos ou os longos cabelos que prenderam Fausto? Foram as mandingas ou sua compreensão da beleza pura da vida? Os dois se deliciavam num ajuntamento fragoroso de espumas quando, de súbito, ele se foi. Um segundo foi o tempo necessário para encerrar aquela história de tantos anos, de tanta vida. Ninguém jamais viu o espanto nos olhos límpidos de Xanda ao sentir que o peso dele sobre si já não era o mesmo. As portas do paraíso arreganhadas e Fausto arrebatado, lá dentro, sem dizer adeus.



Brisa é suave coisa nenhuma. Desastrada, pés e mãos imensas, busca poesia nos sons e delírios na palavra - o que quer é fluir tocando, escrevendo, cantando... é artista e professora da terra, das águas, das naturezas grapiúnas. Leciona Língua Inglesa em escolas e cursos na cidade de Itabuna. Brisa Aziz publicou crônicas e poemas em coletâneas como as "Profundanças", projeto que publica mulheres de todo Brasil. Traduziu "Inúmera", livro de poesia de Daniela Galdino. É mais conhecida musicalmente por sua atuação na Manzuá, banda que preza pela poesia e diversidade rítmica, honrando ancestralidades na produção musical contemporânea. Manzuá integrou o projeto "Memórias do Rio Cachoeira", que trouxe 12 poemas musicados pela banda como trilha sonora - uma realização com as produtoras NúProArt e Voo. Ama Poesia, Literatura, Música e Línguas Estrangeiras.

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