ME AJUDA AQUI (CRÔNICA)

Atualizado: 3 de jun.

Helenna Castro


Rapaz, que arrependimento de não ter me organizado direto esse semestre. O fim de novembro se aproxima e meu TCC não está concluído. Se eu tivesse me preparado melhor, não precisaria estar sentada às 19h de uma sexta à noite digitando, quase tonta de calor. Faltam quatro dias para a entrega, mas parece que é para amanhã. Achei que já teria terminado a essa altura.

Decido descansar após horas de labuta. Ainda bem que não tem aula hoje... Poderei ver o jogo do Bahia. Tomara que ganhe, chega de estresse por hoje.

Meu companheiro chega da rua com o que mais preciso agora. Cerveja gelada e beijinho na nuca.

Saio da escrivaninha e me endireito. Hora de torcer pra esse time não cair. Enchemos os copos e brindamos. Bebo os primeiros goles e começo a soluçar.

Num boto nem fé. Uma hora dessa!

Começo a utilizar uma das técnicas que aprendi na infância, prender a respiração. Tomo um fôlego e uso ambas as mãos para cobrir boca e nariz. Não dá certo. Repito o ritual por 3 vezes sem êxito.

Pergunto a Mateus se ele seria capaz de me asfixiar para cessar minha agonia.

E isso dá certo? O negócio né susto, não?

Respondo que aprendi assim. Ele dá de ombros e vai mexer no notebook que está na mesa.

Com o fracasso da asfixia com as mãos, resolvo empurrar meu rosto contra a cama até perder o ar. Começo a operação quando ouço ele soltar um chocado "eita porra". Desisto daquele método e viro para perguntar o que houve.

Antes que pudesse dizer palavra, ouço uma afirmação que me paralisa:

Lula morreu!

Por instantes, senti que o ar tinha ficado mais denso e que necessitava gritar. Mas não deu tempo do surto se iniciar. Ele me informa que era apenas um "susto" para me ajudar.

Lula tá vivo e o soluço passou.


Arte: Papel.

Helenna Castro é multiartista, graduanda em Comunicação Social - Jornalismo, militante da Consulta Popular - Núcleo Revolta no Engenho de Santana e integrante do coletivo Brasil Vermelho.