QUEM ROUBOU A AUTOESTIMA DE BACO EXU DO BLUES?

Rafael Conceição Santos


Na minha infância era muito comum ver as mulheres da família esquentarem um pente de ferro (sim, é bem antigo) e passarem no cabelo. Era bizarro e ninguém tinha consciência crítica ou sabia o que estava por trás daquele “ato de beleza”. A verdade é que eu era uma criança que não compreendia as razões que motivavam essas mulheres a recorrerem a procedimentos tão dolorosos, provocando queimaduras no próprio couro cabeludo pelo único desejo de deixar os cabelos esticados. Infelizmente, esses atos que minhas irmãs e milhares de mulheres negras praticaram durante anos, não machucavam apenas o couro cabeludo, mas roubavam algo muito caro para elas, a autoestima.

Os anos se passaram e as práticas de alisamento por ferro quente foram substituídas pelo uso de produtos químicos capilares altamente agressivos. Quando fazemos uma análise sociológica e problematizada sobre isso, percebemos que nesse simples ato de alisar os cabelos esconde-se uma tentativa legítima e extremamente cruel para as mulheres negras. Legítima porque todos nós queremos ser aceitos, pertencer a um grupo e, principalmente, não sofrer com a exclusão e o racismo. A reprodução desses comportamentos representa a busca por aceitação e o esforço para serem reconhecidas como pessoas bonitas e dignas de afeto e amor. Por outro lado, é extremamente cruel porque legitima o racismo na sociedade, fazendo com que apaguemos nossas características pessoais, culturais e ancestrais, na tentativa de nos adequar a um “padrão” de beleza eurocêntrico e que há mais de quatro séculos nos faz acreditar que nossos traços físicos e os nossos cabelos são feios e necessitam estar alisados para serem considerados bonitos.

Baco Exu do Blues, em seu mais recente disco intitulado “Quantas vezes você já foi amado?", narra com maestria sobre a afetividade de pessoas pretas, mostrando como o racismo impacta na nossa noção de amor, carinho e saúde mental. Na faixa “Autoestima”, por exemplo, ele imprime esse processo da busca da autoestima que roubaram de nós, como no caso de minhas irmãs e pessoas pretas. Ademais, Baco resgata a ideia de que falar sobre amor é revolucionário, e, a meu ver, essa é a chave para combatermos todas as narrativas racistas. Quanto mais falarmos sobre o amor, mais as coisas ficarão claras e passíveis de intervenção e mudança.

Sendo assim, cabe ressaltar também que, se não discutirmos e debatermos sobre nossas feridas, não chegaremos a lugar algum. Até porque o propósito do sistema operandi do racismo é encardir a nossa existência, tapar nossos olhos e fazer com que procuremos a nossa autoestima no padrão do opressor.

A jornada para “tornar-se negro”, para resgatar nossa identidade ancestral e entender os impactos do racismo em suas mais variadas nuances, é um processo extremamente desgastante e pode despertar em nós os sentimentos de raiva, medo, desamparo e solidão. Contudo, apesar de ser doloroso revisitarmos nossas feridas, é urgente falarmos sobre o assunto, especialmente com as nossas crianças, para que elas não demorem 25 anos para se perceberem lindas e dignas de amor.

Portanto, recuperaremos nossa autoestima se negarmos primeiro toda a narrativa que criaram sobre nossos corpos, sobre nossa intelectualidade, nossa cultura, nosso continente e nossas crenças. A partir daí, será possível resgatar e narrar exaustivamente nossa própria história, porque somente encontraremos nossa verdadeira autoestima em nossos semelhantes.



Rafael Conceição Santos é bacharel em Psicologia.