RESENHA CRÍTICA DO LIVRO HIBISCO ROXO

Atualizado: 31 de mar.

Helenna Castro


O vencedor do prêmio de melhor primeiro livro do Commonwealth Writers, Hibisco Roxo (2003), é o romance inicial da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, atualmente considerada um dos principais nomes do feminismo negro mundial. Dentre outros títulos, englobam a obra da autora Meio sol amarelo (2006), vencedor do Baileys Women’s Prize de 2007 e adaptado para o cinema em 2013, Americana (2013) e No seu pescoço (2017).

Trazido para o Brasil pela Companhia das Letras em 2011, com tradução de Julia Romeu, Hibisco Roxo é escrito em primeira pessoa por Kambili, uma adolescente que vive em Enugu, na Nigéria, com seus pais e seu irmão Jaja. O enredo é voltado aos impactos que a colonização europeia e cristã trouxe à população, com especial enfoque nas atitudes extremistas e violentas que Eugene, pai da protagonista, acaba por executar para cumprir com veemência preceitos religiosos e, dessa forma, “embranquecer-se” culturalmente. Castigos físicos, penitências e humilhações são comuns na casa da família.

Foto: Helenna Castro.

"Os passos de Papa na escada pareceram mais pesados, mais desajeitados do que o normal. Saí do quarto no mesmo segundo que Jaja saiu do dele. Ficamos no corredor, vendo Papa descer. Mama estava jogada sobre seu ombro como os sacos de juta cheios de arroz que os empregados da fábrica dele compravam aos montes na fronteira com Benin."


Concomitantemente, a narrativa aborda um golpe militar sofrido pela nação, e que culminou em múltiplas adversidades políticas, sociais e econômicas. Dono de um jornal impresso com posicionamento de combate ao novo governo, Eugene tem de lidar com a responsabilidade de proteger seus funcionários e parentes de represálias, o que o leva a enviar seus filhos à Nsukka, para que fiquem sob os cuidados de sua irmã, uma professora universitária, por certo período. Tia Ifeoma é viúva e educa seus três filhos de maneira antagônica a do irmão, estimulando a expressividade e permitindo que eles tenham contato com as tradições de seus ancestrais, apesar de também ser cristã. Ao contrário de seu irmão extremamente rico, Ifeoma cria sua prole com recursos escassos. O contato com este novo modo de vida transforma a percepção de mundo tanto de Kambili, quanto de Jaja.

A leitura é envolvente e emotiva, fazendo com que o interlocutor se torne cada vez mais íntimo de Kambili e empático com as problemáticas que esta enfrenta para se libertar das amarras criadas pelo fanatismo religioso paterno e para se entender como mulher provida de vontade própria e ser humano detentor de direitos. Os personagens são bem desenvolvidos, com o aprofundamento necessário para criar um vínculo que dá a sensação de proximidade entre leitor e texto. De linguagem fácil e intuitiva, embora não simplista, é um livro recomendado para todos os públicos.


Helenna Castro é multiartista, graduanda em Comunicação Social - Jornalismo e integrante dos coletivos Brasil Vermelho e Malês.