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QUEM MANDOU MATAR MARIELLE?

Atualizado: 17 de mai. de 2023

Ingrid Macedo


No dia 14 de março de 2018 por volta das 21h, Marielle Franco, vereadora da cidade do Rio de Janeiro eleita em 2016 com mais de 40 mil votos, foi executada junto a seu motorista, Anderson Gomes. Marielle levou pelo menos quatro tiros na cabeça, e Anderson ao menos três tiros nas costas, quando o carro em que estavam foi emparelhado por outro veículo e alvejado numa ação de execução.

Marielle Franco. Reprodução: rede social.

Após 4 anos da fatídica noite, as investigações do caso resultaram em inúmeras operações policiais, envolvendo uma ampla rede de criminosos do Rio de Janeiro, e que levou a mais de 65 prisões até hoje. Entre as pessoas presas, estão os executores de Marielle e Anderson, Roni Lessa e Élcio de Queiroz e integrantes de quadrilhas que foram desmanteladas em investigações da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro. A Força-tarefa afirma que o policial reformado Ronnie Lessa foi o executor de Marielle e Anderson e atirou contra a vereadora, enquanto o ex-militar Élcio Vieira de Queiroz dirigia o carro que perseguiu Marielle.

No dia das prisões, em março de 2019, a polícia encontrou 117 fuzis que Lessa escondia na casa de um amigo. Além do armamento, mais 500 munições, três silenciadores e R$ 112 mil em dinheiro foram apreendidos. A maior apreensão de armas da história do Rio de Janeiro. Lessa morava no mesmo condomínio em que o presidente Jair Bolsonaro mantém uma casa, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, local onde as armas foram encontradas.

A arma usada no atentado nunca foi encontrada. A suspeita é que o material foi jogado no mar da Barra da Tijuca. A polícia afirma que o descarte do armamento aconteceu dias depois da prisão de Ronnie, em 12 de março, e teria contado com a participação de quatro pessoas, entre elas a mulher e o cunhado do PM reformado, que foram presas na operação Submersus, em outubro de 2019. Em depoimento à Delegacia de Homicídios (DH) da Capital, um pescador contou que um comparsa de Ronnie Lessa contratou seu barco e jogou seis armas no mar perto das Ilhas Tijucas. Para a polícia, entre as armas estava a submetralhadora HK MP5 usada para matar Marielle e Anderson. Posteriormente, em junho de 2020, foi efetuada a prisão de um sargento do Corpo de Bombeiros, braço direito de Ronnie Lessa e suspeito de ajudar a sumir com as armas.

A partir do caso Marielle e Anderson, outros homicídios e crimes como tráfico de armas e extorsões foram esclarecidos. Mas, a pergunta de quem mandou matar Marielle e por quê, segue sem respostas, e com contornos cada vez mais confusos.


Interferências no caso:


Março/2019 - O titular da Delegacia de Homicídios (DH) da Capital, Giniton Lages, foi afastado do caso logo após a prisão dos executores de Marielle e Anderson. Seu substituto foi Daniel Rosa.

Setembro/2019 - Já em setembro do mesmo ano, Raquel Dodge, Procuradora Geral da República, apresentou denúncia ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra cinco pessoas por interferência nas investigações do assassinato de Marielle e Anderson. No mesmo mês, Raquel Dodge informou que solicitou a federalização da investigação dos mandantes do crime.

Maio/2020 - Após ser eleito com um episódio de extremo desrespeito à memória de Marielle, e vetar a criação de praça que pretendia homenageá-la no Rio de Janeiro, o ex-governador Wilson Witzel foi acusado de fazer interferências no caso. Em entrevista, Witzel disse que sugeriu ao delegado responsável à época pelo caso, Giniton Lages, que prendesse imediatamente os executores do crime, ainda que sem o esclarecimento sobre a existência de um eventual mandante.

Maio/2020 - Em depoimento, ex-ministro de Bolsonaro, Sérgio Moro diz que presidente pediu a superintendência da Policia Federal do Rio de Janeiro. Segundo Moro, o presidente pedia desde março de 2019 que ele pudesse indicar para o então ministro, um nome de confiança para estar à frente da superintendência da PF.

Setembro/2020 - Caso muda de delegado mais uma vez: Em agosto de 2020, o governador Wilson Witzel foi afastado do cargo pela Justiça e seu vice, Cláudio Castro, assumiu como governador interino. Castro nomeou Allan Turnowski como novo secretário da Polícia Civil, ele por sua vez, logo anunciou a saída de Antônio Ricardo Nunes da chefia do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP), que foi assumida por Roberto Cardoso. O DGHPP comanda as delegacias de Homicídios da capital e da Região Metropolitana. Cardoso então trocou o delegado do caso Marielle e Anderson, Daniel Rosa, por Moisés Santana.

Julho/2021 - Pela quarta vez em pouco mais de 3 anos, delegado é afastado do caso: Mais uma troca no comando das investigações foi feita, a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) do RJ realocou Moysés Santana, que capitaneou o caso nos últimos dez meses, colocando-o na 18ª DP (Praça da Bandeira). O novo titular das investigações é o delegado Henrique Damasceno. Os familiares não foram informados sobre a troca e demonstraram preocupação com mais essa mudança após 3 anos.

Julho/2021 - Promotoras do caso Marielle e Anderson pedem afastamento voluntário, após indícios de interferências externas.

Julho/2021 - Possível vazamento de informações e quebra de sigilo ameaça a investigação do caso mais uma vez. O último ato das promotoras foi a denúncia contra o delegado da Polícia Civil Maurício Demétrio, preso no fim de junho de 2021, suspeito de comandar um esquema que exigia propina de lojistas, que vendiam roupas falsificadas. De acordo com a denúncia, Demétrio recebeu – de uma pessoa ainda não identificada – informações sigilosas do caso Marielle e Anderson. Os dados, que fazem parte do processo, estavam no e-mail de um ex-policial civil que teve o sigilo telemático quebrado durante as investigações. O ex-policial seria ligado à contravenção e também investigado pelas mortes da vereadora e do motorista.

Fevereiro/2022 Caso Marielle chega ao quinto delegado após mudanças na Polícia Civil: A investigação passa pela quinta mudança de delegado responsável. Edson Henrique Damasceno, titular da Delegacia de Homicídios da Capital, então responsável pelo caso, vai para a chefia do Departamento-Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa (DGHPP). Em seu lugar, assume o cargo o delegado Alexandre Herdy, até então titular da 10ª DP (Botafogo).

Reprodução: Twitter: Instituto Marielle Franco.

A linha do tempo acima foi produzida pelo Instituto Marielle Franco, disponível no site: https://casomarielleeanderson.org/linha-do-tempo


EXTRA

Quem é Ronnie Lessa? Os policiais que investigam a trajetória do Lessa acreditam que ele tenha sido contratado para matar dezenas de pessoas ao longo de mais de uma década. Na sua carreira, o ex-PM teve uma breve passagem pelo batalhão de choque e logo depois entrou como voluntario no BOPE (Batalhão de Operações Especiais), sem que tenha feito o curso de operações especiais ou o curso de ações táticas. Após 4 anos integrando o BOPE, passou a trabalhar no 9° Batalhão, em Rocha Miranda, uma das áreas mais violentas da cidade, no Patrulhamento Tático Móvel (Patamo) na viatura de número 500. Durante o seu tempo de serviço no 9° Batalhão, Ronnie Lessa recebeu a duas vezes um bônus sobre o salário chamado “gratificação faroeste”, conferido após participação em conflitos armados que apresentassem como desfecho vítimas fatais. Uma proposta do governo do Rio nos últimos anos da década de ‘90. Denúncias e inquéritos arquivados indicam que a Patamo 500 atuou em Rocha Miranda com práticas conhecidas no jargão policial como “mineira” (uma caça ao tesouro): os policiais começaram cada vez mais a negociar a sobrevivência de criminosos procurados, que passaram a ser sequestrados e liberados em troca de dinheiro. A vida como moeda de troca. Nenhum dos policiais que integravam a Patamo foi investigado pelos crimes cometidos na época, que incluíram execuções e desaparecimentos.

A Patamo 500 juntou em serviço, na mesma viatura, os autores de alguns dos crimes de maior repercussão da história recente do Rio, como comandado e comandante. Ronnie Lessa, pelas mortes de Marielle e Anderson e o então major Claudio Oliveira (hoje tenente-coronel) preso por ser mandante do homicídio da juíza Patricia Acioli.

Lessa e Claudio, ambos em pé à esquerda da foto. Reprodução: O Globo.

No início de 2003, foi “emprestado” para a polícia civil através de um boletim do diário oficial, tornando-se um policial adido. Os adidos não precisavam usar farda, se limitar geograficamente na hora de fazer uma ronda, respeitar os horários oficiais de trabalho e no fim do mês recebiam mais por isso. Lessa começou a circular por algumas delegacias especializadas e pode aprender diversas técnicas que o ajudaram no submundo da pistolagem: na Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) ele aprendia a montar e desmontar armas, na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), ele aprende na pratica como a polícia investiga crimes e, consequentemente, como nunca ser pego. Num áudio obtido pela polícia no seu celular, ele descrevia para amigos como a polícia buscava contradições no depoimento de suspeitos.

Durante a investigação do caso Marielle, a polícia encontrou pistas de que ele teria sido contratado para matar a partir de 2006, enquanto trabalhava como adido. Essas pistas foram dadas pelas buscas feitas por ele na internet, pois ele pesquisou dados de centenas de pessoas em mais de uma década: digitava no Google nomes completos, CPFs e endereços e logo depois os alvos das buscas eram assassinados, em operações barbaras com muitos tiros. Casos que nunca foram solucionados. Em 2009, Lessa foi aposentado pela PM após um sofrer um atendado: uma bomba foi plantada em seu carro e ele acabou tendo a perna esquerda amputada. Um tempo após, o filho de um dos maiores bicheiros do rio, o Rogerio Andrade, foi vítima de um atentado com o mesmo tipo de bomba, menos de 6 meses depois. A ligação entre os crimes para a polícia era óbvia, tornando óbvia também a proximidade do policial com o jogo do bicho.

Foi na nuvem do Lessa que a polícia e o Ministério Público encontraram as provas que incriminariam ele pelo homicídio. 3 pesquisas feitas em proximidade à data do crime chamaram muita atenção dos investigadores: segundo o policial federal Marcelo Pasqualetti, ele pesquisou um local próximo ao curso de inglês que a vereadora frequentava, e que era passagem obrigatória no trajeto dela; uma universidade onde ela efetivamente deu uma palestra e, por fim, pesquisou o endereço onde ela havia morado e onde morava à época o marido dela, endereço esse onde ela esteve no dia em que ele pesquisou. Ele fazia as pesquisas em datas muito próximas as das que de fato ela estaria nos locais, tinha uma rotina de buscas e, no dia em que ele matou a Marielle, a rotina mudou: as buscas pararam. Ele volta a pesquisar sobre ela apenas meses depois.



Ingrid Macedo, de nome indígena Juacema, pertence ao povo Pataxó, é artesã, comunicadora popular e integra o coletivo Brasil Vermelho.



REFERÊNCIA

“Polícia prende mulher e cunhado de PM reformado suspeito de matar Marielle e Anderson.” Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/10/03/caso-marielle-policia-civil-e-mp-do-rj-cumprem-mandados-nesta-quinta.ghtml.

“Polícia Civil e MP do RJ prendem bombeiro suspeito de obstruir investigações dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes.” Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/10/policia-civil-e-mp-do-rj-fazem-operacao-nesta-terca-feira.ghtml.

“Delegado Giniton Lages foi surpreendido ao ser afastado do caso Marielle.” Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/delegado-giniton-lages-foi-surpreendido-ao-ser-afastado-do-caso-marielle-23520800.

“Caso Marielle: Dodge denuncia 5 por interferência na investigação e pede abertura de novo inquérito.” Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/09/17/dodge-diz-que-apresentou-denuncia-sobre-caso-marielle-franco-e-anderson-gomes.ghtml.

“Witzel interferiu no caso Marielle ao sugerir à polícia do Rio quando prender suspeitos.” Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/witzel-interferiu-no-caso-marielle-ao-sugerir-a-policia-do-rio-quando-prender-suspeitos.shtml.

“Quero apenas uma superintendência da PF, a do Rio, disse Bolsonaro a Moro segundo depoimento.” Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/bolsonaro-pediu-em-marco-troca-de-comando-na-pf-do-rio-disse-moro-em-depoimento.shtml.

“Investigação do caso Marielle Franco troca de chefe pela segunda vez.” Disponível em: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/investigacao-do-caso-marielle-franco-troca-de-chefe-pela-segunda-vez/.

“Pela quarta vez, delegado do caso Marielle é trocado. ‘A família não foi comunicada sobre absolutamente nada’, diz Anielle.” Disponível em: https://ponte.org/pela-quarta-vez-delegado-do-caso-marielle-e-trocado-a-familia-nao-foi-comunicada-sobre-absolutamente-nada-diz-anielle/.

“Perto do quarto aniversário do crime, caso Marielle chega ao quinto delegado no Rio.” Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/02/04/perto-do-quarto-aniversario-do-crime-caso-marielle-chega-ao-quinto-delegado-no-rio.

“Promotoras do MPRJ deixam força-tarefa que investiga morte de Marielle Franco e Anderson Gomes.” Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/07/10/promotoras-do-mprj-deixam-forca-tarefa-que-investiga-morte-de-marielle-franco-e-anderson-gomes.ghtml.

“Vazamento de informações sob sigilo coloca em risco investigação do caso Marielle, diz MP.” Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/07/12/marielle-vazamento-informacoes-denuncias.ghtml.

“Caso Marielle chega ao quinto delegado após mudanças na Polícia Civil.” Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/02/02/caso-marielle-chega-ao-quinto-delegado-apos-mudancas-na-policia-civil.ghtml.

“Série Pistoleiros: Conheça a Patamo 500, patrulha que formou Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle Franco.” Disponível em: https://oglobo.globo.com/rio/serie-pistoleiros-conheca-patamo-500-patrulha-que-formou-ronnie-lessa-acusado-de-assassinar-marielle-franco-1-25298813.

“Podcast Pistoleiros – 1. Ronnie Lessa”, assinado pelo jornalista Rafael Soares. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/7uUNdxL0RgTHDcGNRbibKI?si=5a7146ed29794080.

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